6 de jun. de 2008

MUDAR

Clarice Lispector


Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares poronde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama... depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros, viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!
Repito, por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!!!!

31 de mai. de 2008

SORRIA!

(Em dias de cão... - Gabriel o Pensador/Itaal Shur/Tico Santa Cruz)


Não coma de boca aberta, não fale de boca cheia; não beba de barriga vazianão fale da vida alheia, não julgue sem ter certeza e não apoie os cotovelos sobre a mesanão pare no acostamento, não passe pela direita, não passe embaixo de escada que dá azarnão cuspa no chão da rua, não cuspa pro alto, não deixe de dar descarga depois de usarnão use o nome de deus em vãonão use o nome de deus em vãonão use o nome de deus em vão, irmão não use remédios sem orientação
SORRIA! Você tá sendo filmado SORRIA! Você tá sendo observado SORRIA! Você tá sendo controlado’cê tá sendo filmado! ’cê tá sendo filmado!

Não coma de boca aberta, não fale de boca cheia, não toque nos produtos se não for comprar não pise na grama, não faça xixi na cama; não ame quem não te ama [não ame quem não te ama!]não chame os elevadores em caso de incêndio não entre no elevador sem antes verificar se o mesmo encontra-se neste andarnão chupe balas oferecidas por estranhosnão recuse um convite sem dizer obrigadonão diga palavras chulas na frente dos seus avósnão fale com o motorista; apenas o necessárionão se deixe levar pelos instintos carnaisnão desobedeça seus paisnão dê esmola aos mendigos, não dê comida aos animaisnão dê comida aos animais, não dê esmola aos mendigosnão coma de boca aberta, não fale de boca cheia, não dê na primeira noite, não coma a mulher do amigo.

Não use o nome de deus em vãonão use o nome de deus em vãonão use o nome de deus em vão, irmão não use remédios sem orientação
Não se deixe levar! não se deixe levar! não se deixe levar! não se deixe levar!
Coma de boca aberta, coma de boca fechadacoma nos elevadoresem caso de incêndio coma nas escadascoma no chão da rua, coma na grama, coma camaame quem não te ama, [ame quem não te ama!]não recuse balas oferecidas por estranhos não dê esmola aos mendigos sem dizer obrigadonão chupe os animais, não desobedeça aos seus instintos carnaisnão dê na primeira noite na frente dos seus avósnão use o nome de deus se não for comprarnão coma a mulher do amigo sem antes verificar se o mesmo encontra-se neste andar.

14 de mar. de 2008

VIVO

(De Lenine, mas, hoje, quase minha...)

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!
Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Eis aqui um vivo, eis aqui...
E apesar...
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vil, do servo e do servil;
Da mente o mal doente coletivo;
Do sangue o mal do soro positivo;
E apesar dessas e outras...
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!
É estar vivoVivo
É estar vivo
Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis aqui um vivo, eis-me aqui.

25 de jan. de 2008

UM RIFLE PARA DOMINGAS

Por Ronaldo Naziazeno
(amigo-amado-irmão, físico, professor, comunista e quase pró-feminista...)



Para o imigrante, a chegada à São Paulo pode ser humilhante, quase insuportável; ele agüenta — que jeito, se veio para agüentar e comer? Engole comida e desaforos. Mas nem por isso a humilhação é aceita como natural, não se enganem, os suplícios ficam arquivados, transmutam-se em vinganças ou sabedorias.

Domingas, por exemplo, que veio pra cá há décadas: baiana, ainda feia, porque pobre, ia para a escola à noite de barriga vazia, escolhia entre pagar o transporte ou a comida.

Agora nós a vemos diante das vitrines de uma certa Casa Vogue, loja de moda cara da Avenida Paulista.

No vidro que a separava das roupas não via a si mesma, dentes precisando de trato, o cabelo desde sempre chamado de ruim por outras mulatas como ela; emitia uma impressão de sujeira que a pobreza confere a certos recém-chegados em cidade grande, não importa quanto sabão o portador use, anterior à pobreza limpa, esta, já um princípio de integração.

Diante dos trajes que, um só, lhe pagaria meses de refeições, Domingas caiu em êxtase digno de Santa Teresa, perdoe-me a doutora da Igreja. Esqueceu-se de si mesma, diante daquele museu do dinheiro, e entrou no transe das impossibilidades que, com dois ou três suspiros, ficariam poéticas, mas não dá para entrar nessa, honestamente: distâncias culturais, abismos de grana, São Paulo, uma roupa com jeito europeu a meio metro e inalcançável. Vixe! Enfeitar a carência?

Uma funcionária da Vogue veio de lá de dentro como um raio, interrompendo os 60 segundos de contemplação: “Sai daqui, você não pode ficar aqui, faça o favor de ir embora”. Do topo de sua condição de empregada da loja, nordestina já corrigida pelo salário nem tão alto, pousada na sua integração à cidade, enxotou sua irmã de espécie e geografia, como a um vira-lata que invade um banquete.

E, entredentes, “Xô!”, mandou-a embora do lugar público, da calçada. Porque a riqueza e seus prepostos mandam e privatizam. Hannah Arendt não estava por perto para lamentar a transformação cada vez maior do espaço público em privado.

Sem Arendt como defensora diante da funcionária da Vogue, Domingas foi chorar em Cidade Patriarca, que nem era lugar quente. Nunca entendi por que a recomendação de chorar em lugar quente.

A Casa Vogue fechou, não por praga de Domingas. Sinto dizer que não sei o que houve com ela, se São Paulo a integrou ou a expulsou. Mas seus sucessores estão por aqui.

Outro dia vi e ouvi um deles, Ferréz, escritor jovem que mora no Capão Redondo, mais branco que Domingas e já mais bem-nutrido. Está em outra etapa. Dizia que seus textos querem a revolução e que se não conseguir revolucionar com eles, pegará um rifle.

4 de jan. de 2008

REGLAS DEL JUEGO PARA LOS HOMBRES QUE QUIEREN AMAR A MUJERES

I
El hombre que me ame
deberá saber descorrer las cortinas de la piel,
encontrar la profundidad de mis ojos
y conocer la que anida en mí,
la golondrina
transparente de la ternura.

II
El hombre que me ame
no querrá poseerme como una mercancía,
ni exhibirme como un trofeo de caza,
sabrá estar a mi lado
con el mismo amor
con que yo estaré al lado suyo.

III
El amor del hombre que me ame
será fuerte como los árboles de ceibo,
protector y seguro como ellos,
limpio como una mañana de diciembre.

IV
El hombre que me ame
no dudará de mi sonrisa
ni temerá la abundancia de mi pelo
respetará la tristeza, el silencio
y con caricias tocará mi vientre como guitarra
para que brote música y alegría
desde el fondo de mi cuerpo.

V
El hombre que me ame
podrá encontrar en mí
la hamaca para descansar
el pesado fardo de sus preocupaciones
la amiga con quien compartir sus íntimos secretos,
el lago donde flotar
sin miedo de que el ancla del compromiso
le impida volar cuando se le ocurra ser pájaro.

VI
El hombre que me ame
hará poesía con su vida,
construyendo cada día
con la mirada puesta en el futuro.

VII
Pero sobre todas las cosas,
el hombre que me ame
deberá amar al pueblo
no como una abstracta palabra
sacada de la manga,
sino como algo real, concreto,
ante quien rendir homenaje con acciones
y dar la vida si necesario.

VIII
El hombre que me ame
reconocerá mi rostro en la trinchera
rodilla en tierra me amará
mientras los dos disparamos juntos
contra el enemigo.

IX
El amor de mi hombre
no conocerá el miedo a la entrega,
ni temerá descubrirse ante la magia del
enamoramiento
en una plaza pública llena de multitudes
podrá gritar —te quiero—o hacer rótulos en lo alto de los edificios
proclamando su derecho a sentir
el más hermoso y humano de los sentimientos.

X
El amor de mi hombre
no le huirá a las cocinas
ni a los pañales del hijo,
será como un viento fresco
llevándose entre nubes de sueño y de pasado
las debilidades que, por siglos, nos mantuvieron
separados
como seres de distinta estatura.

XI
El amor de mi hombre
no querrá rotularme o etiquetarme,
me dará aire, espacio,
alimento para crecer y ser mejor,
como una Revolución
que hace de cada día
el comienzo de una nueva victoria.

Gioconda Belli